A Formiga - Maik Wanderson




Solitária no chão de cerâmica amarronzada, a formiga segue decidida, carregando vitoriosa algum fardo doce que colhera sob a mesa.


Há um caminho, há um intuito, e ela há de cumpri-lo, indiferente a qualquer variável que possa interferir em sua tarefa.


A formiga desconhece o significado da palavra mesa, assim como desconhece o significado das paredes, do telhado, do reflexo no piso lustrado, tanto quanto não se importa com a existência das ruínas de Atlântida, porque também desconhece toda e qualquer lenda. Não há tempo a perder com raciocínios vis, não há necessidade de questionar-se sobre naves de civilizações perdidas. Importa-lhe a subsistência, a luta implacável pelo próprio alimento, sem espaço para sonhos nem nomes ou conjecturas, sem música, sem alegrias ou tristezas.


Existe somente a formiga levando a carga açucarada sobre as costas, atravessando os vãos pretos entre as placas de cerâmica, contornando os móveis até deparar-se com a parede infindável.


Escalar é necessário, é automático, no indelével propósito do pequeno ser; rápidos são seus múltiplos passos. Rápidos, porém insuficientes contra o dedo do homem e sua força indiferente, magnânima.


Existe agora somente uma mancha ínfima na parede.

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Maik Wanderson é contista, com dois livros físicos publicados pela Editora Penalux: 'o dia de viver' e 'Não cubram as vergonhas'. Nascido em Limoeiro do Norte, Ceará, vive atualmente em Fortaleza. Mantém uma fanpageem que publica textos, imagens e ebooks: facebook.com/odiadeviver

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